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O coronavírus vai matar o cinema e acelerar a TV do século 21?

O que limita o avanço do streaming hoje não é o modelo de negócio ou a disposição do consumidor, mas sim a estrutura de rede. Com as pessoas em casa, o aumento do consumo de streaming estressou a infraestrutura instalada de banda larga.

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8 de maio de 2020 - 7h51

 

 

Por Omarson Costa (*)

Foto de abertura: Cena da série Dark da Netflix

O hábito faz o monge. O ditado popular sintetiza o efeito das circunstâncias da vida sobre nossos comportamentos. A pandemia de Covid-19 provocou o choque mais severo e repentino na economia mundial que qualquer pessoa viva já experimentou, conforme constatou a articulista do site norte-americano The Atlantic Annie Lowrey.

Tal choque obrigou, de uma hora para outra, mudanças de grandes proporções quando ficou claro que o distanciamento social era a medida mais sensata.

Conforme bem definiu Mark Read, CEO do WPP Group, megacorporação global de propaganda: “Estamos presenciando uma década de inovação digital condensada em 4 semanas; nos demos conta de como nos comunicamos, trabalhamos, viajamos, fazemos compras, usamos serviços financeiros, educamos nossos filhos”.

Nossa percepção mais aguda sobre o estilo de vida e as barreiras impostas pela quarentena vai acelerar um processo já em curso: tudo vai virar digital!

Mesmo depois que a crise de saúde pública causada pelo coronavírus for embora, as pessoas não vão se livrar do medo. Lembre-se de como o uso da camisinha se popularizou depois da epidemia de AIDS ou as pessoas ficaram paranóicas com o terrorismo após o 11 de Setembro. A Covid-19 vai afetar nosso comportamento social e digitalizar ainda mais nosso cotidiano.

Um dos setores em que essa revolução fica mais evidente é o do entretenimento. Março foi o mês em que as pessoas começaram a se convencer a ficar em casa. Resultado: nos EUA, a audiência das TVs disparou de maneira geral – canais abertos, a cabo e o streaming. Segundo pesquisa, cerca de 47% dos consumidores aumentaram seus gastos em entretenimento.

A Nielsen detectou que os americanos baixaram para as TVs nas três primeiras semanas de março 400 bilhões de minutos de programação, 85% sobre o mesmo período no ano anterior. E isso só leva em conta a TV. Agregando celulares e computadores pessoais, o volume foi ainda maior. Um único (e imortal) indivíduo levaria 761 milênios para dar conta de tanto conteúdo. É mais de duas vezes a existência da nossa espécie na Terra. Essa é a medida.

Outro sinal significativo: a fatia do streaming neste bolo continua crescendo e atingiu 23% de tudo o que se viu pela TV versus 16% há um ano. Essa aceleração é irreversível. Qual o efeito dela sobre canais a cabo? E o cinema, vai sumir?

 

Cabo, o horizonte perdido

 

Há algum tempo os especialistas vaticinaram o ocaso da TV a cabo. No Brasil, até o final de fevereiro, antes do início do distanciamento social portanto, o número de acessos estava em queda de 11% em relação ao ano anterior, segundo a Anatel. Já nos EUA, apesar das previsões apocalípticas, os números têm caído mais devagar. No começo da Guerra do Streaming (veja meu artigo sobre isso aqui) ainda havia 93 milhões de assinantes.

Isso não quer dizer que a premissa esteja errada, mas vale investigar a discrepância: toda pesquisa costuma apontar que 1 em cada 3 entrevistados pretendiam ou iam “cortar o cordão”, como se diz em inglês, para o cancelamento da assinatura. Só que, no final, a queda ficava longe dos 30%. Por que?

A evolução de assinantes da TV a cabo, com e sem os vMVPDs. Fonte: MatthewBall

Uma das explicações está na sigla vMVPD (Virtual Multichannel Video Programming Distributor). São serviços via internet das operadoras de cabo, embora o YouTube TV e o Hulu se encaixem nessa categoria. Aqui no Brasil, o exemplo mais conhecido é o Now, da NET Claro, que é basicamente um aplicativo. O v que abre a sigla indica o fato de a estrutura ser acessível via internet, o que dispensa o cabo coaxial e a visita do técnico, por exemplo. A melhoria de interface e modelo de uso convenceu pessoas que tinham deixado o cabo a voltar a perceber valor no serviço, estancando a perda de assinantes.

A outra razão importante está nos canais de esporte, historicamente o potinho de ouro da TV por assinatura. ESPN, SportTV, Fox Sports trouxeram conteúdo premium. Deram ao assinante a oportunidade de acompanhar seu time de futebol sem depender da TV convencional. O mesmo raciocínio vale nos EUA.

O custo do licenciamento dos esportes subiu às alturas. O NFL Sunday Ticket, pacote de jogos da liga de futebol americano não disponível para as afiliadas locais, custou à DirectTV em 1994 US$ 25 milhões por ano. Ter esses direitos fez a AT&T inclusive comprar a DirectTV em 2015, quando havia acabado de assinar uma extensão de contrato com a NFL por mais oito anos por US$ 1,5 bilhão (US$ 187,5 milhões por ano).

Aqui, sempre que o público reclama do preço do Pay-Per-View do futebol, a operadora atribui ao custo do licenciamento.

Em 2016, apareceu o DAZN, primeiro serviço de streaming de esportes ao vivo. A lógica é a mesma da Netflix. Paga uma mensalidade de cerca de R$ 20 e pode assistir ao cardápio todo em até 2 dispositivos simultâneos (TV, computador, celular, tablet ou console). As primeiras divisões da Inglaterra, Itália e França, além da Copa Sul-Americana, por exemplo.

Como as plataformas de streaming estão crescendo e se aperfeiçoando, grandes fornecedores de conteúdo às operadoras também começaram a ver vantagem no estabelecimento de serviços OTT (o outro nome do streaming). Detalhe: a Disney é dona da ESPN e do FoxSports, por exemplo. O surgimento de um canal ESPN+ é esperado, nos EUA, até 2021, e o Fox Sports no ano seguinte.

 

Dark times para Netflix?

 

A migração para os aplicativos D2C (Direct to Consumer) não ocorre só nos esportes. A Disney lançou seu canal no final do ano passado, o HBO Max deve estrear ainda nesse trimestre e até a TV aberta está correndo atrás do prejuízo – vide o esforço de propaganda que as Organizações Globo dão ao Globo Play.

Leia maisA Netflixazação da TV

Quanto mais estúdios e produtores de conteúdo veem lógica em investir no streaming, começa a ficar desinteressante para eles os acordos de licenciamento com a Netflix.

Esse movimento gera uma pressão sobre o catálogo da empresa que estabeleceu o padrão do mercado ao fazer uma oferta ainda melhor que as operadoras de cabo. Por uma fração do que se pagava por assinaturas de TV, você tinha um conteúdo amplo para ver na hora que quisesse, onde quisesse e sem anúncio.

A Netflix ofereceu em 2018 mais de 1.500 horas de conteúdo aos seus assinantes nos EUA. No entanto, 7% da audiência se concentrava na reprise da antiga sitcom The Office, que pertence à NBC. A empresa só terá seu carro-chefe no catálogo até janeiro de 2021, segundo o The Guardian. Depois disso, quem quiser rever os episódios terá de recorrer ao serviço de streaming da NBC-Universal. No Brasil, a série Friends deve deixar o catálogo em algum momento no futuro.

Quanto menos conteúdos de terceiros a Netflix tiver para oferecer, mais terá de investir em produções originais, tendo de se aproximar do modelo de seus concorrentes diretos, que saem em vantagem em tamanho e prestígio dos títulos, além do know-how de décadas.

O CEO da Netflix, Reed Hastings, costuma dizer: seus adversários pela audiência não são só os canais de TV aberta ou por assinatura. Como o público dorme oito horas e trabalha em média mais oito horas, sobram oito horas para uso próprio. Nessa faixa, a Netflix também concorre com a padaria, o supermercado, a pizzaria e qualquer outra atividade em que as pessoas se engajem.

No final, o importante é o usuário gastar o maior tempo possível conectado à plataforma. Em vez de maratonar uma temporada de uma vez e passar a semana sem ver nada, o ideal para o negócio da Netflix é você acessar com frequência. Lembra do gráfico de contaminação versus capacidade do sistema de saúde da Covid-19? É mais ou menos o mesmo raciocínio. O objetivo é achatar a curva. Com um catálogo mais pobre, essa missão se complica.

 

A Cor do Dinheiro

 

Com a multiplicação dos players no mercado de streaming, quem também vai ser pressionado é o bolso do consumidor. Se ele tiver que assinar a Netflix para ver séries como Casa de Papel, a Disney pela programação infantil, a Fox pelos Simpsons, a HBO para maratonar Westworld ou rever Game of Thrones, a ESPN e a Globo pelos jogos, o modelo perde a vantagem econômica que o popularizou.

Leia mais: Você sabe quanto gasta em assinaturas todo mês?

O mercado já percebeu que o bolso do consumidor tem fundo e não voltará a gastar tanto quanto investia em TV por assinatura. Então a briga é por se posicionar logo para faturar assinantes enquanto eles têm recursos ou rever o modelo de negócio.

O mundo dos vídeos sob demanda, VoD na sigla em inglês, será dividido em 3 categorias:

1) Transational VoD – como o Now; caso queira conteúdo, você vai lá e compra. Daí o ‘transacional’ da sigla.

2) Subscription VoD – a Netflix, Amazon Prime, Disney+, Globo Play, HBO Max. Você paga uma assinatura e acessa o catálogo. Mas, como dissemos, o wallet share do consumidor tem limite.

3) Advertising VoD – Para não estressar o bolso do consumidor, a alternativa é inspirada no modelo da TV aberta. Você não paga nada para usar a plataforma desde que concorde em assistir propaganda. Lembrou o YouTube? Pois é.

 

No escurinho do cinema não tem Covid?

 

Distanciamento social, quarentena, lockdown. Terminologias à parte, ir pra rua se divertir deixou de ser opção. Os cinemas estão fechados. E muitos provavelmente não vão mais abrir as portas. Crescem nos EUA os boatos de que AMC Theaters, maior cadeia do mundo, pode entrar com pedido de recuperação judicial.

Uma sala de cinema tem três tipos de receita: a dos ingressos da sessão, o gasto que os clientes fazem com pipoca e outras guloseimas (nos EUA, isso responde por 30% do faturamento e de 45% a 50% do lucro das redes) e,  por fim, a publicidade exibida antes do filme começar.

O custo, por outro lado, é composto pelo aluguel do espaço físico e os acordos com as distribuidoras para definir os títulos que vão entrar em cartaz. No Brasil, apesar da recente maré positiva – em 2018, foram acrescentadas mais de 3 mil salas – 40% dos municípios não têm nenhuma. O coronavírus exterminou a receita, mas não a despesa com aluguel.  São Paulo, que concentra cerca de um terço das salas brasileiras, deve sofrer bastante. Nos EUA a AMC já avisou que não vai pagar aluguel das salas esse mês.

Supondo que as salas voltem a reabrir ainda esse ano, dificilmente veremos sessões cheias. A liberação de público será gradual e, mesmo sem qualquer restrição, as pessoas vão ficar apavoradas se alguém ao lado tossir ou espirrar.

É difícil cravar que a experiência do cinema (a sala escura, o som envolvente) vai sumir. Mas não será o único local para ver os lançamentos de longa-metragens.

Os estúdios vão recorrer ao streaming! A Disney, por conta da Covid-19, lançou Frozen 2 e Dois Irmãos (OnWard) no Disney+. O serviço Amazon Prime ganhou nos EUA a opção Prime Cinema para ver as estreias em casa. Se Warner, Sony, Fox possuírem seus VoDs, os lançamentos vão aparecer nestas plataformas, seja por assinatura ou transacional, como acontece hoje no Claro Now.

 

No México, a cadeia de salas Cinépolis criou o serviço Cinépolis Klic em que você pode pagar online para ver um filme específico e, se fizer a assinatura, ganha descontos também para ir à sala física.

Em São Paulo, o Cine Belas Artes criou uma plataforma VoD para exibir seus filmes clássicos durante a quarentena e conseguir algum faturamento. Mas não dá pra comparar a escalabilidade desse modelo ou mesmo o do Klic com o poderio de negociação dos grandes estúdios.

O cinema brasileiro, que tem um share de mercado em torno de 20%, na ocupação de salas, deve recorrer ainda mais ao streaming. Entre 2011 e 2016, dos 701 filmes produzidos aqui, 490 (ou 70%) foram oferecidos em streaming.

Bottomline: em 2010, AMC e Netflix tinham faturamentos parecidos, em torno de US$ 2 bi; uma década depois, a Netflix prevê faturar US$ 24 bi e a AMC US$ 4 bi.

 

Asas da liberdade

 

O que limita o avanço do streaming hoje não é o modelo de negócio ou a disposição do consumidor, mas sim a estrutura de rede.

Com as pessoas em casa, o aumento do consumo de streaming estressou a infraestrutura instalada de banda larga. A tal ponto que autoridades da União Europeia e da Austrália pediram à Netflix, responsável por 13% do tráfego de internet, reduzisse a qualidade de seu catálogo 4K para não derrubar a rede.

Esse é o grande nó a desatar. No tempo da TV a cabo, uma pessoa tinha que ir a sua casa, fazer furos nas paredes, passar fios, deixar uma caixa e um cabo coaxial para tudo funcionar. O nosso wifi caseiro, infelizmente, ainda é assim.

No Brasil temos um desafio extra. A penetração da banda larga fixa, essa que depende de cabos ou antenas, é baixíssima – está em 40% dos domicílios. A móvel é maior, mas de qualidade bastante irregular (os celulares 4G tinha penetração de 74% segundo a Anatel, em fevereiro, mas a qualidade ainda é sofrível para o uso intensivo de vídeo sob demanda).

Isso tudo tende a mudar tanto aqui como no exterior quando começar a operar a 5ª geração da internet móvel. O 5G é muito mais rápido que o 4G e vai fazer a banda larga móvel decolar de vez e tornar obsoletos de vez os modems grandalhões e a necessidade de passar fios e cabos para ter internet em casa.

A necessidade de ter banda larga confiável para fazer home office, viabilizar o ensino a distância, as operações financeiras e o e-commerce ainda mais confiáveis, deverá apressar o cronograma do 5G. E aí, meus caros, o novo mundo passa a ser o das caixas de streaming.

Em vez de disputa entre TV por assinatura ou canal aberto, você escolhe entre o FireTv, a Apple TV, o Chrome Cast e o Roku, um concorrente bastante forte nos EUA que está desembarcando no Brasil. Aí é só selecionar os apps da sua preferência e mergulhar na TV do século 21. Divirta-se!

 

(*) Omarson Costa atua como Conselheiro de Administração, com formação em Análise de Sistemas e Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet

Acompanhe meus outros artigos no meu blog – Blog do Omarson: omarson.com.br

Este artigo representa minhas opiniões pessoais. Toda crítica é bem-vinda desde que seja feita com o merecido respeito.

 

 

 

 

 

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