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Quem roubou o bolo de laranja?

Fake News: não é uma mentira que a define, mas a vontade que se tem de acreditar em sua versão


13 de agosto de 2020 - 17h30

(Crédito: Reprodução)

Um cheiro de feijão preto feito com toicinho, folha de loro e linguiça toscana na panela de pressão invade minha sala e abre meu apetite. Ainda são 11h da manhã de um domingo ensolarado e na cozinha da minha casa nenhum sinal de preparação do almoço.

O aroma vem da janela na casa da minha vizinha. Ele não vem sozinho, vem acompanhado de um samba chiado de um vinil surrado pelo tempo. “Pra que mentir, se tu ainda não tens…” Para mim, esse é o gosto e a trilha sonora de todo domingo.

Dona Vera era mais que uma vizinha, para mim, tia Vera. Estávamos conectados por um laço que se estendia pelas paredes coladas das casas de um pequeno vilarejo. Era assim que começava o meu almoço no domingo, sentado à mesa posta do vizinho. Junto aos meus quatro primos, minha tia, meu tio e mais minha irmã. Tia Vera era aquele tipo de mãezona que abraça todo mundo e faz tudo pelos filhos.

Sua principal característica era, além de supermãe, sua honestidade. Ela se manifestava, principalmente, dizendo a verdade, doa a quem doer. Tia Vera sempre dizia o que precisava ser dito e isso fazia dela uma pessoa de caráter inquestionável.

 – A verdade, somente a verdade, nada além da verdade.

Um dia um último pedaço de seu delicioso bolo de laranja sumiu da sua geladeira. Não se tratava de apenas de um pedaço de bolo, mas de um gesto de carinho reservado ao seu marido para quando chegasse do trabalho. Até hoje ninguém sabe como aquele pedaço de bolo sumiu, mas com a ausência de alguém que assumisse o crime, Tia Vera dilacerou toda a sua verdade sobre mim.

Nesses crimes todo gordinho é suspeito de largada, mas nesse dia exatamente eu não havia saído de casa. É que seria muito doloroso para a Tia Vera admitir que algum dos seus filhos teria

comido o bolo e não assumiu. Eu era o culpado perfeito. O ponto é que ela montou sua teoria baseada não em um fato, mas no que ela gostaria de acreditar ou não acreditar. Para ela, essa versão lhe parecia verdadeira. Era um viés de confirmação.

Imagino que se na época existisse WhatsApp, estaria com minha reputação marcada pra sempre. Não seria isso a melhor definição de Fake News? Ou seja, não é uma mentira que a define, mas a vontade que se tem de acreditar em sua versão.

Como é de senso comum no jornalismo: “ Você tem direito à sua opinião, mas não aos próprios fatos”. Essa, por outro lado, não foi a narrativa que prevaleceu, afinal eu também tinha mãe. Nesse embate de versões uma coisa ficou muito clara para mim. Não se vence um debate baseado em fatos. Por mais que minha mãe comprovasse que eu não tinha saído de casa. Nada era capaz de convencê-la.

Bom, o tempo passou, eu me formei, me especializei, estudei muito. Tudo isso para não avançar nenhum milímetro sequer sobre o que é a verdade desse causo do bolo de laranja. É que existe um valor velado que em nome da família fosse possível cometer os mais terríveis crimes, mesmo que apenas encobrir o roubo de pedaço do bolo de laranja.

É assim que pessoas de bem, de caráteres inquestionáveis podem fazer coisas terríveis. Apesar desse causo, ficaram muito mais memórias boas e até hoje para mim o domingo tem cheiro de feijão preto na panela de pressão. Agora, se vocês me disserem que domingo tem cheiro de macarronada ao molho de tomate, só lhes digo isso: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

*Crédito da foto no topo: iStock

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