Os esculhambáveis

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Os esculhambáveis

Se você tem mais que 35 anos, é da última geração que aceitou ser esculhambada no trabalho e seguir em frente como se nada tivesse acontecido


19 de fevereiro de 2019 - 10h35

(crédito: Nicole De Khors/ Stock Up)

 

Se você nasceu na década de 1970, cresceu ouvindo seus pais falarem que para ter sucesso na vida teria de estudar mais que os outros meninos e meninas da rua, mais que a concorrência da USP e da GV, trabalhar mais duro e por mais tempo que todo mundo ao seu redor e, principalmente, respeitar a autoridade dos chefes. Se isso funcionou para eles, funcionaria para você também.

A receita escrita durante os anos do regime militar era, aparentemente, a única que funcionava naquela época. Por falta de informação ou opção, assim foi como entramos no mercado de trabalho. Uma característica que define os formandos dos anos 1990 é a aceitação pacífica de ser esculhambado sem reclamar. O que era restrito ao lar com nossos pais, transferiu-se para o ambiente de trabalho com nossos chefes.

Se você tem mais que 35 anos de idade, faz parte da última geração na história da humanidade que aceitou estas regras. Que aceitou ser esculhambada e seguir em frente sorrindo como se nada tivesse acontecido.

Aceitamos ser tratados assim porque este era o combinado. Apesar dos tempos terem mudado muito, carregamos dentro de nós um DNA de “esculhambável”. Desde o primeiro emprego até a presidência da empresa, isso sempre nos parecerá normal.

Para os millennials que povoam os escritórios mundo afora neste 2019 é inimaginável que alguém desrespeite você no trabalho. Que sorte (ou talento) deles não terem de seguir as regras que foram impostas para a minha geração.

Diferentemente dos formandos da minha classe da Escola Politécnica da USP, os novos profissionais esperam que todos os seus colegas e chefes no seu primeiro emprego (assim como de todos os outros 37 que terão em suas carreiras) respeitem a sua individualidade e preferências e que façam tudo para atender suas necessidades profissionais e pessoais.

Isso sem falar sobre a comida e bebida grátis, a mesa de pingue-pongue, o transporte oferecido pela empresa com wi-fi ultrarrápido e os salários maiores dos que os nossos pais ganharam nos últimos anos de suas carreiras. Tudo isso com direito a reclamar que o cookie de chocolate-chips é de chocolate meio amargo.

Mas eles não estão errados. Os tempos é que mudaram. O dilema da nossa geração é que acidentalmente ficamos espremidos entre os esculhambadores da geração anterior e os inesculhambáveis da geração seguinte. As coisas mudaram muito rápido e não deu tempo para entender bem as novas regras do jogo. Resultado: seguimos aceitando o tratamento que recebemos, mas temos de traduzi- lo aos nossos times, sob o risco de desmotivá-los.

Se não formos muito cuidadosos e usarmos todo o tato do mundo nesta tradução, podemos perder um dos nossos novos talentos. Algo imperdoável.

Há alguns anos, uma jovem que trabalhava comigo pediu para discutir sua carreira. Assim foi a conversa:

Ela: “Ricardo, eu quero trabalhar na Europa, com marketing esportivo e ainda fazer parte do seu time.”

Eu: “Muito bem. O problema é que não há posições na Europa em marketing esportivo e no meu time.”

Ela: “Mas eu quero muito isso.”

Eu: “Eu entendo. Temos algumas opções. Eu posso te arrumar um trabalho na Europa ou um trabalho com marketing esportivo aqui nos Estados Unidos ou um trabalho na Europa e com marketing esportivo, mas fora da empresa.”

Ela, já com a voz trêmula: “Mas não é isso que eu quero. Eu quero trabalhar na Europa, com marketing esportivo e ainda fazer parte do seu time.”

Eu: “Pois é… Mas isso é o melhor que dá pra fazer.”

Ela: “Com quem mais eu posso falar para resolver isso?”

Eu: “Você pode falar com quem quiser, até mesmo com nosso CEO. Ele vai me perguntar depois e eu vou dar a mesma resposta pra ele.”

Ela: … (enxuga as lágrimas, agradece e sai da sala)

Dois meses depois ela se demitiu e foi trabalhar em uma empresa de tecnologia e eu tive de explicar para o meu chefe por que deixei isso acontecer. Tudo bem, foi só mais uma esculhambada. Vamos para a próxima.

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