A conversa que não houve

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A conversa que não houve

Na lista das conversas que programei, o não esperado chegou antes, roubando-me o chão, a chance de conhecer um dos subversivos da propaganda: Neil Ferreira


11 de dezembro de 2017 - 13h40

O momento que não veio a acontecer, aquilo que não foi dito, a pergunta guardada entre tantas curiosidades, o agradecimento que, na repetição do “deixa para depois”, virou escrita, e não fala. Na lista das conversas que programei, o não esperado chegou antes, roubando-me o chão, a chance de conhecer um dos subversivos da propaganda. Reside em uma pequena anotação, entre Regina e Poliana, entre Demian e Mano, um sucinto nome que muito me diz: Neil. A conversa que não houve se torna fantasia, sonho bom até, no diálogo tanto ensaiado.

No instante após a notícia de sua partida, vasculhei a internet porque me lembrava de um trabalho mais aprofundado em torno de Neil Ferreira. Já adianto meu obrigado a Graça Craidy, sem a qual esse devaneio não seria possível. É no trabalho dela e nas frases pinçadas aqui e ali que encontro a voz que preenche estas linhas.

Nesse ensejo, eu deixaria o celular na mesa gravando e timidamente perguntaria:

– Neil, você, que criou campanhas que até hoje fazem parte da cultura popular, nunca quis ser dono. Por quê?

E, talvez, com certa irritação pela obviedade da questão, responderia que ele é o cara que não tem dono, que é mais gato de telhado do que de sofá. Que não seria escravizado por empresa alguma, nem mesmo a dele, deixando para cravar um título brilhante ao fim: “Eu não abri porque daí eu não vou ter pra quem pedir demissão.”

Um pouco mais à vontade, eu continuaria:

– Então, você não é dos que precisam ter?

Ele puxaria da infância e relembraria o pai, que ele chamou de poeta em entrevista. E diria que não gravou discussões sobre “ganhar a vida”, fazer, ter coisas. Preferiu gravar mais as tentativas de ser, de sonhar.

E orgulho, Neil, você tem? Ele falaria do Leão que virou verbete de dicionário, da inversão simples que pensou ao criar o baixinho da Kaiser (ninguém nunca tinha mostrado o ato de fazer xixi) e da influência da leitura de Monteiro Lobato, na sua vida e no ato de trazer emoção à morte de um orelhão. Aproveitaria, aqui, para emendar se ele alguma vez achou ter um dom, uma facilidade a mais. Sem pestanejar, ele diria, com uma simplicidade interiorana, que você precisa apenas acordar um pouco mais cedo do que os outros e dormir um pouco mais tarde.

Nessa conversa, não haveria como passar batido pelo anúncio que o Zaragoza criou: “Neilzinho querido, volte para casa, tudo está perdoado.” Juntos por esse minuto, endossaríamos que essa é, quiçá, a maior declaração de carinho entre parceiros dessa nossa profissão. Em uma provocação barata, eu levaria a prosa para o momento em que ele reuniu a criação e se demitiu da agência dizendo: “tive uma ideia maravilhosa, não volto mais aqui depois do almoço”. Para, em seguida, conectar com a sua frase “prêmio para mim é bom, para os outros é marmelada”. Caberia aqui uma risada sacana.

Seria uma tarde para voltar para casa como criança em dia de São Cosme e Damião. E, no silêncio da noite, eu leria o início de um texto que permanece atual: “Já era tempo de denunciá-los à nação. Olha as armas terríveis que eles têm nas mãos. São armas que podem abalar governos ou vender produtos. Com elas, esses homens são capazes de mudar a história de um país ou a história de um produto. Basta apertar um botão. De uma máquina fotográfica. Uma câmera de cinema. Um aparelho de TV. A tecla de uma máquina de escrever. Eles usam essas armas para gerar insatisfações, criar descontentamentos, acender desejos.”

Lembraria, então, que deveria ter encerrado a conversa com uma indagação:

– Neil, de tudo o que você viu, qual a lição que você acredita sobreviver ao tempo?

E ele replicaria que ninguém é subversivo sem correr um grande risco.

Eu, em vão, tentaria disfarçar a emoção. E diria um obrigado engasgado.

Como esse que aqui escrevo.

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